"A melhor maneira que o homem dispõe para se aperfeiçoar, é aproximar-se de Deus".
Peguemos nesta frase de Pitágoras e adaptemos ao futebol. A melhor maneira que Lionel dispõe para se aperfeiçoar, é aproximar-se de Deus (e este não tem necessariamente de ser aquele em quem vocês estarão a pensar...). Sim, porque parece que cada vez que vemos Lionel a jogar sentimos que ele se está a aproximar de uma entidade divina, do tal Deus, suposto símbolo da perfeição (já Voltaire dizia que "se o homem fosse perfeito, seria Deus"...).
Lionel apareceu por toda a parte, mas só na parte final foi verdadeiramente divino, atingindo o patamar dos Deuses do futebol (algo que não é propriamente uma novidade na sua carreira). O reencontro entre o clube de Lionel (também conhecido como Barcelona) e o campeão alemão (treinado pelo mestre máximo do tal rapaz predestinado) prometia ser um espectáculo também ele a roçar o divino e, em boa verdade, se não foi um jogo espectacular, teve pelo menos detalhes interessantíssimos de parte a parte e foi muito bem disputado (até o senhor mais mencionado neste texto ter decidido agitar o mundo em apenas três minutos...).
A ideia inicial do mestre Guardiola versava uma linha recuada de três, com Boateng, Benatia e Rafinha, o adiantamento dos laterais Lahm e Bernat e um meio-campo reforçado com Xabi na contenção, Thiago solto a desequilibrar e Schweinsteiger disposto a infernizar a vida a Sergio Busquets. No entanto, os planos iniciais saíram furados, pois o diabólico trio de Irmãos Metralha do ataque catalão logo tratou de abanar com a defesa contrária. Pep, sempre astuto, tinha a carta óbvia na manga, mudando para um lógico 4-4-2 losango por volta do minuto 20.
Com a defesa reequilibrada e o jogo mais estabilizado a meio-campo, o Bayern foi ganhando mais coragem nas saídas, contando para isso com a capacidade de trabalho e mobilidade do duo da frente (Muller-Lewandowski). O perigo não chegava, é certo, mas a equipa ia dando, pelo menos, uma resposta mais firme perante a formação orientada por Luis Enrique: Busquets estava quase aniquilado, Iniesta soltou-se apenas a espaços e a profundidade ia sendo sobretudo conferida por Dani Alves e Suárez, que aliás dispuseram das duas melhores ocasiões do Barça no primeiro tempo. Ao centro, um homem se destacava: Rakitic. Com bola, encontrava as melhores linhas de passe, sem ela fugia e buscava os melhores espaços para a eventualmente receber.
Ao intervalo, o nulo aceitava-se, embora as melhores oportunidades tivessem pertencido à equipa da casa. Os alemães, estabilizados no novo registo táctico, atacaram o segundo tempo com uma abordagem mais ofensiva e conseguindo pressionar mais adiante no terreno. A equipa de Pep recuperava mais bolas no meio-campo contrário, mas depois faltavam condições para criar perigo, quer por inoperância dos seus avançados, quer por mérito dos centrais culés, Piqué e Mascherano, que terão realizado uma das melhores exibições da temporada.
Pouco a pouco, o Barcelona foi-se soltando e tinha sempre em mira a profundidade dos seus atacantes, explorando o espaço nas costas dos laterais bávaros. Rakitic continuava a laborar em grande estilo no meio-campo, sendo acompanhado por um Iniesta a bom nível. Faltava soltar-se o do costume: Lionel. Não estava fora do jogo, muito longe disso, mas a defesa do Bayern foi conseguindo travar os seus arranques e ímpetos, mesmo em lances que pareciam mais perigosos. Até que chegou o fatídico minuto 77...
Juan Bernat é, sem margem para dúvidas, um dos laterais mais promissores do futebol europeu na actualidade. Rápido e com vocação ofensiva, cruza bem e garante profundidade na ala. Até aí, não se havia destacado muito por essa característica e defensivamente ia aguentando como podia... No entanto, decidiu sair a jogar no seu próprio meio-campo, qual viajante de peito feito e, quando deu por ela, já Dani Alves lhe havia roubado o esférico e endossado para os pés de Lionel, que fez o que melhor sabe: arrancada curta, mas hiperactiva e remate colocado, sem hipótese de reacção para Neuer. O Camp Nou explodia.
"A este nível, não há sistema nem treinador que possam parar Messi", havia dito Pep Guardiola na conferência de imprensa antes desta partida. Dito e feito. Três minutos volvidos, passe inteligente de um soberbo Rakitic para os pés de Leo, que ziguezagueou, sentou Boateng e atirou um chapéu de aba perfeita sobre o monstro Neuer. De pé direito, meus amigos. De pé direito!
Com uma desvantagem de 2-0, restava ao Bayern não mais do que procurar um golpe de asa final, de forma a levar uma desvantagem perfeitamente recuperável para o jogo da próxima terça-feira, na Allianz Arena. Mas não, aconteceu exactamente o contrário: num contra-ataque, Lionel isolou Neymar Jr. e este bateu Manuel Neuer com uma subtileza a fazer lembrar compatriotas como Ronaldo ou Romário. Ufa, que final este...
Uma diferença de três golos há-de deixar marca. Mais do que isso, porque até Lionel entrar em acção a partida registava uma relativa dose de equilíbrio. Foi mesmo ele a mexer com o mundo. A noite foi dele, não exclusivamente, se formos rigorosos, mas se não aparecesse o rapaz que quer chegar perto de Deus provavelmente não teríamos saído de um simpático nulo.
A Pep, resta seguir a lição de James Joyce: os génios não cometem erros. Os seus erros são sempre voluntários e dão origem a alguma descoberta. Veremos é se, no espaço de apenas seis dias, o génio do catalão irá descobrir a fórmula para dar a volta a um cenário tão adverso...
PS: Palavra a Luis Enrique. Muitos lhe bateram ao longo da temporada, mas o labor do treinador asturiano está a ser bastante meritório: recuperou Messi para níveis próximos do seu melhor, soube readequar a equipa a diferentes circunstâncias e tem uma máquina de produzir bom futebol. Não é o divino Barça de Pep, mas esse está morto e enterrado. E verdade seja dita, também nos divertimos muito a ver este jogar à bola!

Comentários
Enviar um comentário