Foto: UEFA.com
Confesso que não me é fácil estar a ver um jogo da Selecção em directo sem sofrer um bocadinho. Aliás, como acho que o discernimento da minha análise pode-se ver em alguma medida afectado pela lógica parcialidade, procuro sempre ver o jogo repetido, já completamente livre de qualquer tipo de ligação emocional à selecção do meu país. Ora bem, visto e revisto o encontro frente à Áustria, não creio que haja muito mais a apontar a Portugal que o problema da falta de contundência em frente à baliza adversária. Essa é, na verdade, a grande pecha da turma de Fernando Santos neste Europeu: em duas partidas, ambas perante adversários que passaram grande parte dos encontros em fase defensiva (embora com diferenças na forma de defender), Portugal chutou 50 vezes mas apenas logrou marcar numa ocasião (quando André Gomes superou uma situação de desvantagem numérica com apenas um cruzamento e Nani aproveitou um espaço vazio na área para finalizar à vontade).
A equipa tem conseguido criar oportunidades, tanto em bola corrida como em bola parada, mas falta atinar na hora de atirar à baliza. Cristiano Ronaldo, por exemplo, tem estado pouco inspirado e isso nota-se, evidentemente. Em 20 remates, o craque da Selecção Nacional não conseguiu apontar qualquer golo, tendo inclusivamente falhado uma grande penalidade. Importa recordar que oito dos 21 pontos conquistados na fase de apuramento foram garantidos pelos golos do CR7. O impacto que o atacante do Real Madrid tem nesta equipa, para o bem e para o mal, não merece qualquer discussão.
No entanto, o problema parece mais abrangente. Não é só por Cristiano, é também um pouco pelo resto dos outros atacantes e sobretudo pela forma como a equipa muitas vezes ataca. A equipa não constrói assim tantos lances de impacto colectivo, recorrendo demasiadas vezes ao cruzamento lateral sem qualquer efeito (por vezes, nem há qualquer jogador em boa posição para corresponder) e a situações individuais que nos deixam completamente dependentes da capacidade de decisão no momento do jogador A, B ou C. Parece-me evidente que neste encontro frente aos austríacos se viram algumas jogadas de entendimento bem promissoras, mais do que na primeira partida, mas ainda assim não foram suficientes para chegar ao golo. A equipa pode e deve melhorar a forma como efectua o ataque posicional, definindo melhor processos e posicionamentos. A dependência excessiva da individualidade é tudo aquilo que não se deve desejar, à partida. A individualidade deve sempre sobressair como consequência de um bom processo colectivo.
De resto, a equipa parece-me bem mais sólida e com processos mais bem assimilados nesta altura. Registo com agrado a forma como Portugal procura agora ser protagonista nos jogos, tentando ter a iniciativa, algo que nem sempre se verificou ao longo de uma pragmática e "resultadista" fase de qualificação. Defensivamente, a equipa beneficia imenso da presença do veterano Ricardo Carvalho, jogador com um posicionamento, uma leitura de jogo e uma qualidade técnica ímpares. Aos 38 anos, é um indiscutível neste "onze". A seu lado, Pepe deixou de lado as distracções que o condenaram no primeiro jogo e mostrou também um nível interessante, desarmando com segurança e efectuando várias intercepções importantes. Nas laterais, Raphael Guerreiro continua a demonstrar valor, tanto na forma como apoia a equipa nas iniciativas de ataque como nas recuperações defensivas.
Outra alteração interessante para este encontro foi a entrada de William Carvalho para o "onze". Quiçá não tenha a velocidade de Danilo, mas equilibra bem a equipa do ponto de vista defensivo e sabe iniciar a construção de forma mais vincada, permitindo que João Moutinho e André Gomes se soltem mais para perto das zonas de decisão. Este último, diga-se de passagem, tem feito por justificar o estatuto de titular, pensando o jogo em andamento e distribuindo sempre com bastante critério.
E agora, que futuro, perguntam muitos de vocês? Para já, é essencial melhorar os processos ofensivos que levem a equipa às zonas de finalização. Esse aspecto é fundamental para bater uma aguerrida Hungria na próxima quarta-feira. O jogo não vai ser fácil mas Portugal tem de assumir o jogo, uma vez mais, perante uma selecção que tem mostrado bom futebol (e iniciativa de jogo!) mas que deverá entrar com uma postura mais cautelosa para esta última partida. Diria que lançar a pujança de Renato Sanches ou a criatividade entrelinhas de João Mário poderá ser uma ajuda (não a única...) para levar de vencida os magiares...
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