As primeiras notas do Brasil de Tite



Depois de mais uma experiência desapontante com Dunga ao leme da Canarinha, a CBF decidiu apostar as fichas em Tite, possivelmente o melhor treinador da última década no Brasileirão. A ideia dos dirigentes federativos brasileiros parecia boa: tacticamente, é um dos treinadores mais bem preparados do futebol moderno brasileiro (sim, agora esqueçam definitivamente aquela ideia do futebol romântico e enternecedor de 1970 ou 1982...), sabe reger um plantel com pulso de ferro, mas sem dar ares de «militar» aos comandos de uma equipa de futebol e, mais importante, sabe ao que vai, mostrando habitualmente um conhecimento impressionante das mais-valias e fraquezas dos adversários (e dos seus próprios jogadores, naturalmente). Os dados para os encontros de estreia frente a Equador e Colômbia, dois testes de alto calibre, estavam lançados. Tite, uma vez mais, não decepcionou.

Tanto no encontro frente ao Equador, em Quito, como na recepção à Colômbia, em Manaus, o antigo treinador do Corinthians optou por implementar o 1-4-1-4-1 que já havia experimentado com sucesso no Timão. A equipa inicial foi a mesma nos dois encontros: Alisson na baliza, linha de quatro na defensiva com Dani Alves e Marcelo nos corredores laterais e Marquinhos-Miranda como dupla de centrais. Com o número 5, e ocupando a posição «5» à sul-americana, estava o trinco Casemiro. Mais adiantados, como médios-interiores (embora baixando muitas vezes para ajudar defensivamente ou apoiar em início de construção), Paulinho e Renato Augusto. Nas alas, Willian do lado direito e Neymar partindo do lado esquerdo, ambos com tendência a flectir constantemente para dentro. No centro do ataque, apareceu Gabriel Jesus, a última pérola do futebol de terras de Vera Cruz.

Começando pela partida de Quito, foi possível percepcionar de imediato uma organização táctica no tal 1-4-1-4-1, com um preenchimento dos espaços interessante do ponto de vista defensivo. Os quatro homens de trás procuraram fechar mais por dentro, o que levou a alguns problemas na cobertura das laterais, nomeadamente quando os velozes Enner Valencia e, sobretudo, Jefferson Montero decidiam arrancar de fora para dentro. Aliás, o Equador conseguiu ser a equipa com maior ascendente no primeiro tempo, fruto dessas arrancadas dos alas, que acabaram por não colher frutos, dado que a selecção tricolor pecou em demasia na hora da finalização. Em muitos momentos, teve de ser Casemiro (ou um dos alas) a efectuar as dobras, garantindo que a equipa não ficava desequilibrada nos corredores laterais.

No momento ofensivo e de transição ofensiva, ficaram patentes algumas dificuldades da selecção de Tite em sair a jogar em apoio com regularidade. Mais para lá de algumas arrancadas em diagonal de Willian e de Neymar e dos movimentos amplos de Gabriel Jesus, não se viu muito da «canarinha» durante os primeiros 45 minutos. Renato Augusto não conseguiu assumir o papel de construtor de jogo e essa «ausência» pode justificar uma certa falta de fluidez do jogo brasileiro nesse período.

Após o intervalo, porém, o cenário foi diferente: a equipa aumentou a velocidade na circulação, passou a ser mais intencional na construção de jogadas ofensivas e a envolver melhor os laterais no processo. Tanto Dani Alves como Marcelo, estiveram algo retraídos na primeira parte, mas no regresso dos balneários mostraram-se mais acutilantes, explorando a largura e a profundidade com argúcia em momentos cirúrgicos da partida. Entretanto, os alas iam flectindo mais para dentro, criando desequilíbrios mais constantes no bloco defensivo equatoriano. Também Renato Augusto passou a colaborar mais e melhor no processo de saída de bola e início de construção. Finalmente tínhamos Brasil!



Foi já nos últimos 20 minutos que apareceram os tão ansiados golos. O primeiro surgiu na sequência de um passe longo de Casemiro. O imponente Arturo Mina parecia ter o lance controlado mas inexplicavelmente deixou-se ultrapassar pelo veloz Gabriel Jesus, que pegou na bola, avançou para a baliza e foi derrubado no caminho para o golo pelo guarda-redes Domínguez. Neymar, mais esclarecido no segundo tempo, foi o responsável pela conversão e por ter colocado o Brasil na frente do marcador. O «show» de Gabriel Jesus iria continuar, com duas finalizações: a primeira, após cruzamento de Marcelo do lado esquerdo e antecipação ao primeiro poste e a segunda, na sequência de uma rotação de corpo de excelência, de um toque de apoio com o pé esquerdo e um remate colocado de pé direito, na gaveta, belíssimo, brutal! O menino Gabriel continua a encantar e está provado que vai ser uma das referências do Brasil nos próximos anos. A sua técnica de finta e remate, a leitura de jogo que lhe permite atacar os espaços em antecipação ou a agressividade que exibe nas acções ofensivas são (e continuarão a ser) tremendamente úteis para Tite, certamente.

Controlar desde o início, aguentar a reacção e terminar por cima

O jogo frente à Colômbia foi disputado sob todo um cenário diferente, logo à partida: da pressão do jogo no Equador, pela estreia de um novo treinador e pela decepcionante prestação na Copa América Centenario à esperança de dias melhores, precisamente conferida pela robusta vitória frente aos equatorianos. Em Manaus, o Brasil voltou a apresentar-se num 1-4-1-4-1, que pode ser moldado num 1-4-3-3 ou num 1-4-2-3-1 (dependendo das circunstâncias). Do outro lado, estava a Colômbia de Pekerman, equipa bastante versátil do ponto de vista táctico e com individualidades notáveis no espaço ofensivo.

O arranque de jogo não podia ter sido melhor para os pentacampeões do mundo: logo aos quatro minutos, canto de Neymar na esquerda e Miranda a fugir à marcação do defensor contrário, cabeceando ao primeiro poste para o golo inaugural da partida. Nos minutos subsequentes, foi possível vermos um Brasil solto, confiante, com os jogadores sempre próximos uns dos outros, trocando a bola com qualidade e procurando um pouco mais de rasgo já no último terço. Neymar foi a face mais visível desse Brasil criativo e alegre, bem apoiado por Marcelo e Renato Augusto, que soube desempenhar com maior preponderância o papel de criativo interior da equipa. A reacção à perda da parte da selecção brasileira ia sendo boa, com destaque natural para os «tampões» Casemiro e Paulinho.

Porém, a vantagem brasileira no marcador esfumou-se numa bola parada (curiosamente, da mesma maneira que o Brasil se havia chegado à frente no marcador), com Marquinhos a desviar para a própria baliza um livre lateral de James. Até ao intervalo, os colombianos souberam equilibrar a partida, com a passagem para um sistema mais aproximado do 1-4-4-2.




Após o intervalo, a Colômbia passou a organizar-se de forma mais competente em termos defensivos, limitando melhor os espaços aos desequilibradores brasileiros. A entrada de Cuadrado foi importante para que a equipa ganhasse essa consistência entre os momentos defensivo e ofensivo. O Brasil não foi tão acutilante como nos primeiros 45 minutos, mas acabou por melhorar com a entrada de Coutinho e Giuliano. Com o equilíbrio no resultado e algumas boas jogadas de ataque, os cafeteros ficaram algo expostos em determinadas situações e acabaram por sofrer o segundo golo numa transição da turma brasileira: Coutinho lançou Gabriel Jesus, que atacou o espaço, arrastando com ele o central colombiano, que afastou a bola para Coutinho, sendo que este terminou dando a assistência para Neymar. O astro do Barcelona fez a diagonal e atirou cruzado para o fundo das redes de Ospina.

Acabou por ser um lance ilustrativo da tremenda qualidade individual deste Brasil no ataque a decidir uma partida muito competitiva. Também no aproveitamento deste tipo de lances, se marcam as diferenças para um passado recente do conjunto «verde-e-amarelo»: a equipa consegue ser efectiva porque a maior ousadia do técnico nas substituições a tal o habilita.

Resumidamente, ficaram boas sensações, mais do que pelos resultados notáveis, pela consistência táctica, pela definição de processos já de si assinalável com tão pouco tempo de trabalho e pelo próprio espírito de conquista e crença que o grupo de trabalho agora encarna. O efeito-Tite já se faz sentir no Brasil (mesmo reconhecendo que ainda há coisas a trabalhar!).



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