Sudamericano sub-20 2017: Charruas ganham o prémio da regularidade na alta montanha


                                                               Foto: EFE/José Jácome


Por entre vales e montanhas equatorianos, com paisagens de cortar a respiração (literalmente), se jogou mais um Campeonato Sul-Americano de sub-20. A 28ª edição da competição de futebol jovem mais importante da América Latina foi arrebatada pela selecção uruguaia, no que supôs o regresso dos «charruas» às conquistas nesta prova, 36 anos depois. Este foi o oitavo título para o Uruguai, segundo país mais consagrado na história do torneio (o Brasil é o primeiro, com 11 troféus).

Durante três semanas e meia, dez equipas, numa primeira fase, e seis, numa segunda fase, em formato hexagonal, digladiaram-se pela conquista do ceptro sul-americano e, sobretudo, pelo acesso ao Mundial da categoria, que irá decorrer entre os meses de Maio e Junho na Coreia do Sul. Na fase inicial, assistimos a boas partidas, emocionantes, com detalhes tácticos interessantes mas ficou desde logo a impressão de que faltava algum nível a equipas habitualmente fortes nesta categoria como o Chile, Colômbia ou Peru. No Grupo A, tivemos uma liderança tripartida. com Equador, Colômbia e Brasil a seguirem para o hexagonal (todas com sete pontos). No outro grupo, o B, imperou a qualidade de uma sóbria e eficiente equipa uruguaia, com Argentina e Venezuela a fazerem companhia aos «charruas» rumo à fase seguinte da competição.

Das equipas que se ficaram pela primeira fase, há pouco a dizer. O Paraguai, com um plantel apetrechado de jovens promessas como Blas Riveros, Christian Paredes, Jesús Medina ou Josué Colmán, ainda acreditou na qualificação, mas as derrotas perante o Brasil e o Equador comprometeram um objectivo credível para uma bela selecção à qual pareceu faltar claramente consistência a nível defensivo. Já o Chile apresentou um plantel com poucas referências e comportou-se como uma equipa amorfa na generalidade dos quatro jogos disputados. Ainda assim, nomes como Raimundo Rebolledo, Francisco Sierralta ou Jeisson Vargas devem ser tidos em conta para o futuro. Quanto à Bolívia e ao Peru, acabou por impressionar a forma como os «incas» acabaram batidos pelos bolivianos no mano-a-mano entre ambos, sendo que a formação tricolor terminou a fase de grupos com os mesmos pontos da última apurada para a liguilha final, a Venezuela.

Olhando para o quadro de resultados e prestações da primeira fase, ficava bem claro que teríamos uma luta acesa pelo título no Hexagonal. No entanto, o Uruguai tratou de afirmar bem alto ao mundo onde queria chegar e com três vitórias consecutivas nas três primeiras jornadas destacou-se dos demais, garantindo desde logo uma vaga no Mundial sul-coreano. Depois, e apesar do percalço vistoso na penúltima jornada perante a surpreendente Venezuela (0-3), o conjunto orientado por Fabián Coito acabou por garantir o título com tranquilidade, na última ronda, batendo os anfitriões equatorianos (2-1), numa partida na qual bastava uma igualdade.

Em abono da verdade, os uruguaios foram a equipa mais regular da competição, tendo perdido apenas uma partida de nove, no total. Aos oito pontos da primeira ronda (fruto de duas vitórias e dois empates), juntaram mais doze pontos no Hexagonal. Estruturada num 1-4-2-3-1 de base com uma linha defensiva segura, um meio-campo que misturava trabalho, contenção e um toque de classe e um ataque profícuo, a Celeste mostrou uma solidez táctica impressionante, parecendo quase imbatível. Se do ponto de vista individual, se destacaram puros-sangue como Nicolás De la Cruz, Rodrigo Amaral ou Rodrigo Betancur, não podemos esquecer a labor de elementos como o guardião Santi Mele, dos elementos do quarteto defensivo (em particular, os centrais Agustín Rogel e Matías Viña) e ainda dos médios Carlos Benavídez e Facundo Waller.

Depois, seguiram-se duas equipas muito interessantes e que mostraram que podem causar surpresa no Campeonato do Mundo: o Equador e a Venezuela. Os anfitriões lutaram pelo título até à última jornada, mas mesmo sem o ter alcançado já se deram por satisfeitos, dado que atingiram o objectivo proposto. As vitórias na fase final sobre Argentina e Colômbia elevaram a campanha equatoriana para outros patamares. Pervis Estupiñán e Bryan Cabezas foram as figuras e goleadores de uma equipa que teve ainda em Jordan Sierra ou Jordy Caicedo outras boas revelações nesta prova. Já a Venezuela, depois de ter empatado os quatros jogos da liguilha inicial, conseguiu impor-se no Hexagonal, somando apenas duas derrotas em todo o torneio. Com um conjunto defensivamente sólido e com o melhor jogador da competição à solta na zona do meio-campo ofensivo (Yeferson Soteldo), os venezuelanos justificaram plenamente a segunda qualificação para um Mundial de sub-20 da sua história.

Por último, numa batalha acesa, a Argentina roubou sobre a linha de meta o último lugar de apuramento mundialista ao velho rival Brasil. E em boa verdade, mesmo não tendo convencido (sobretudo em termos defensivos), a Albiceleste acabou por realizar um bom torneio, mais em concreto no ataque. Elementos como Lautaro Martínez, Marcelo Torres, Tomás Conechny ou Bryan Mansilla trouxeram técnica, espectáculo, vertigem e eficácia à equipa orientada por Claudio Úbeda. Fica de fora a Canarinha (campanha decepcionante, à parte de algumas individualidades, houve pouco arrojo da selecção brasileira) e também a Colômbia, claramente a pior selecção do Hexagonal final, apesar de até ter iniciado bem o torneio...

Melhor «onze» da prova



Wilker Faríñez (Venezuela/Caracas FC): Com 19 anos acabados de completar, já se destacou no último ano na liga venezuelana, consagrando-se como o melhor guarda-redes da competição. Seguro entre os postes, competente nas saídas e muito ágil, é indiscutivelmente um dos activos mais valiosos do terceiro classificado do «Sudamericano». É imponente e tem uma maturidade fora do comum para um guardião tão jovem. Potencial para chegar dentro em breve ao futebol europeu...

Ronald Hernández (Venezuela/Zamora): Lateral-direito bicampeão ao serviço do Zamora (em 2015 e 2016), está a dar os primeiros passos sólidos em termos profissionais. Ao longo do torneio, mostrou ser um lateral competente no processo defensivo, emprestando acutilância à equipa em termos ofensivos, tanto em largura como em profundidade. Veloz e com técnica, mostrou ainda boa calibragem nos cruzamentos.

Agustín Rogel (Uruguai/Nacional): Ainda a evoluir na equipa sub-19 de um dos clubes mais emblemáticos do Uruguai e da América do Sul, foi uma agradável surpresa durante as três semanas de prova. Sempre concentrado na marcação e com um notável jogo aéreo, foi um dos centrais com mais desarmes e intercepções no torneio. Não tendo uma saída de bola tão destacada quanto Santiago Bueno ou Matías Viña, mostrou competência a jogar antecipação e nos duelos de um-para-um defensivos.

Williams Velásquez (Venezuela/Estudiantes de Caracas): Diz-se que já estará comprometido com o Watford, clube que o acompanhou com a máxima atenção durante este campeonato. Aos 19 anos, foi um dos responsáveis por um torneio quase irrepreensível da Vino Tinto em termos defensivos. Formou uma dupla sólida com Josua Mejías, mostrando dominar com competência o espaço defensivo e revelando atributos ao nível do jogo aéreo e do desarme. Joga mais pela esquerda, mas utiliza bem ambos os pés. Coordenado e disciplinado na saída de bola.

Mathías Olivera (Uruguai/Nacional): Lateral consistente, seguro no momento defensivo e com interessante projecção ofensiva. Outro dos produtos da formação do Decano, mostrou jogar bem junto à linha, dando largura à equipa e subindo sempre com critério, acrescentando também mais-valias ao nível dos cruzamentos para a área. No um-para-um defensivo, ganha vários lances, sobretudo em altura, dado que tem uma estatura considerável para um lateral (1,84 m). Sólido no choque e resistente, mostrou ser um dos laterais mais completos desta competição.

Yangel Herrera (Venezuela/New York City): Vinculado ao Atlético Venezuela até meio do torneio, acabou por ser recrutado pelo Manchester City no decorrer da prova, sendo que foi entretanto colocado a rodar na filial nova-iorquina do gigante inglês. Com 19 anos recentemente completados, foi uma das boas-novas do Campeonato Sul-Americano. Foi o patrão do meio-campo de uma equipa muito interessante e organizada. Com a bola nos pés, é um jogador cirúrgico, encontrando facilmente boas linhas de passe, variando o centro do jogo com critério, saindo em condução e aguentando a pressão do rival. A nível defensivo, mostra competência posicional, ganhando com isso a possibilidade de recuperar bolas aos adversários. Pode chegar longe...

Carlos Benavídez (Uruguai/Defensor Sporting): Quase na transição entre os 18 e os 19 anos (que irá completar no final do próximo mês), foi um dos garantes de estabilidade do meio-campo «charrúa». Resistente, combativo, com disponibilidade física e critério no passe, este médio destro destaca-se tanto no trabalho defensivo como na distribuição e até na meia-distância. Não é tão hábil com bola e criativo quanto Betancur mas acabaram por se complementar bem...

Nicolás de La Cruz (Uruguai/Liverpool Montevideo): Destro talentoso e arrojado, foi um dos jogadores de maior destaque da competição. Foi sendo utilizado entre a ala direita e a zona central, nas costas da referência de ataque, mostrando sempre qualidade nas incursões ofensivas. De remate preciso e forte, revelou ser um jogador de fino recorte, forte no drible e nas conduções em velocidade. Incisivo a atacar a carreira de tiro, é uma mais-valia a chegar desde trás, procurando passe ou definição.

Yeferson Soteldo (Venezuela/Huachipato): Transferido para um dos históricos do futebol chileno, o Huachipato, em vésperas da prova sul-americana, foi possivelmente o jogador mais determinante do torneio, apesar do terceiro lugar da Venezuela. Destro, sabe recorrer ao pé esquerdo, evidenciando características próprias de um «enganche» móvel. Extremamente hábil com a bola nos pés, é capaz de acelerar o jogo em progressão e em drible. Nunca pára quieto, esquivando-se com facilidade às impetuosas marcações dos defensores adversários. Define muito bem na bola parada (tanto em livres directos, como em livres laterais ou cantos, sempre de pé direito), embora possa melhorar o remate quando sob pressão. Por vezes, ainda mostra um certo individualismo e pode crescer em termos tácticos mas que pode ter um futuro brilhante, isso é inegável...

Bryan Cabezas (Equador/Atalanta): O goleador do Hexagonal para a selecção equatoriana e uma das figuras já a imperar no Velho Continente. Médio-ofensivo a toda a largura, possui recursos de sobra com ambos os pés, levando a bola em conduções rápidas, sempre com elevados índices de habilidade. Remata bem, muitas vezes depois de se livrar da marcação dos adversários, em espaços curtos. Mais do que um criativo, é um jogador de rupturas, com critério na assistência e na finalização. Bom nível.

Lautaro Martínez (Argentina/Racing): Puro goleador. Já com experiência no escalão máximo do futebol argentino (ao serviço do histórico Racing Club de Avellaneda), foi a estrela-maior da Argentina no «Sudamericano». Caracteriza-se por não hesitar na hora de atirar à baliza contrária. Apesar de ser destro, pode atirar também com a canhota ou de cabeça. Jogador resistente e com uma disponibilidade física considerável.


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