CAN sub-20: Um campeão avassalador, os outros três mundialistas e o melhor «onze»

                                                   
                                                                     Foto: AFP


Na 20ª edição da Taça das Nações Africanas de sub-20, chegou o primeiro título para a Zâmbia, precisamente a nação anfitriã do torneio. Depois de três quartos lugares (1991, 1999 e 2007), os Chipolopolo conseguiram finalmente tocar o céu, na sequência de um registo imaculado: cinco vitórias ao longo da prova, quatro delas conquistadas em tempo regulamentar. Num torneio que serve também para aferir quais as equipas africanas que marcarão presença no Campeonato do Mundo da categoria, destaque ainda para as outras três equipas que chegaram, pelo menos, até às meias-finais da competição, carimbando assim o passaporte para a Coreia do Sul: Senegal, Guiné Conacri e África do Sul. De fora, ficaram as selecções do Egipto, do Mali, dos Camarões e do Sudão.

Vamos passar a analisar, um-a-um, os quatro apurados para o Campeonato do Mundo, num torneio que ficou marcado por um início e um final tímidos em termos de golos, mas que passou por um período de absoluta ebulição entre a 2ª e a 3ª jornadas da fase de grupos...

ZÂMBIA: 

Sensacional a campanha da equipa da casa. Guiné, Mali, Egipto, África do Sul e Senegal, todos sucumbiram ao poderio da selecção orientada por Beston Chambeshi. Donos de um ataque portentoso e com uma defesa sóbria, os zambianos mereceram a conquista do primeiro troféu da sua história. Estruturada num 1-4-4-1-1 (com variantes 1-4-2-3-1 e 1-4-4-2), a formação do sul de África revelou uma fluidez notável no seu jogo, apostando constantemente na promoção de trocas de bola rápidas, aproveitando de forma exímia a largura e, sobretudo, a profundidade dos seus alas. Patson Daka e Fashion Sakala foram os dois nomes mais em foco em termos individuais numa equipa que apontou 13 golos e sofreu apenas dois num total de cinco partidas.

SENEGAL:

Apesar do início tremido (empate frente ao Sudão), e até à final, o torneio dos senegaleses foi digno de candidato ao título. O ponto de inflexão? Indiscutivelmente, o intervalo do encontro frente à África do Sul, na segunda jornada da fase de grupos. Nessa altura, os Leões de Teranga perdiam por duas bolas a zero face aos sul-africanos e conseguiram operar uma reviravolta verdadeiramente épica nos segundos 45 minutos, com o interessante médio Cavin Diagne (defensivamente sólido e com rigor no passe) a ganhar papel relevante nesta história, com dois golos marcados. Diga-se que foi também a partir daí que o Senegal melhor a nível defensivo, mostrando mais consistência nos encontros seguintes. No ataque, o veloz e tecnicista trio constituído por Ibrahima Niane, Krépin Diatta e Ibrahima N´Diaye fez as maravilhas dos adeptos e analistas do torneio. Tudo correu (quase) na perfeição, até chegar a malfadada tarde de Lamine Sarr, guardião senegalês que foi vilão para os seus conterrâneos e uma espécie de herói para os novos campeões africanos.

GUINÉ CONACRI:

Campeonato interessante de uma equipa onde imperavam dois juniores do Arouca, inscritos na Liga no mercado de Inverno (Morlaye Sylla e Alseny Soumah). Depois de um apuramento garantido à justa num grupo bem competitivo, os guineenses acabaram por cair na meia-final, quiçá com um certo trago a injustiça, sobretudo depois de uma segunda parte de muito perigo (com duas bolas nos ferros incluídas). Ofensivamente, foram possivelmente a equipa menos exuberante, apesar das boas indicações deixadas pelos jogadores atrás referidos e ainda pelos atacantes Yamodou Touré e Momo Yansane. A medalha de bronze nesta CAN pode servir para fazer crescer esta equipa até ao Campeonato do Mundo, o grande objectivo dos comandados de Mandjou Diallo.

ÁFRICA DO SUL: 

Os 135 minutos iniciais nesta CAN pareciam indiciar que estaria aqui o maior rival da anfitriã Zâmbia na luta pela vitória final. No entanto, o baque defensivo do segundo tempo frente ao Senegal adensou as dúvidas quanto ao verdadeiro nível dos jovens Bafana-Bafana. A partida frente à frágil sudanesa serviu para confirmar um apuramento para a Coreia, já facilitado pelo triunfo na abertura perante os Camarões. Com o bracarense Luther Singh como figura de proa, a equipa sul-africana mostrou um potencial tremendo em termos ofensivos, apesar da excessiva dependência do seu principal craque. No plano defensivo, restaram algumas incertezas, apesar do bom torneio do lateral-direito Thendo Mukumela e do imberbe médio-defensivo Wiseman Meyiwa, um dos jogadores mais promissores da geração de 1999. Em suma, o essencial acabou garantido, mas fica a ideia de que esta equipa podia ter ido um pouco mais longe...


«Onze» ideal do torneio


Mangani Banda (Zâmbia/Zanaco FC): Guarda-redes de apenas 19 anos, não tem uma estatura imponente mas é felino nas suas intervenções e consideravelmente ágil. Com bons reflexos entre os postes e arrojado nas saídas, mostra também critério no jogo com os pés. Veremos o crescimento nos tempos mais próximos, com a convicção de que poderá chegar a ser um dos guarda-redes de referência do futebol africano num futuro a médio/longo prazo...

Thendo Mukumela (África do Sul/Mamelodi Sundowns): Defesa-central de origem, cumpriu com relativo sucesso na lateral direita. Forte na marcação, com bom jogo de cabeça, leitura de jogo, velocidade e critério no passe, joga bem em antecipação e mostra qualidades no um-para-um defensivo. Não sendo um «nativo» na posição, expôs-se demasiado numa ou noutra situação. Aos 19 anos, mostra qualidades que o podem levar facilmente até ao Velho Continente.

Mohamed Aly Camara (Guiné/Hafia FC): Central impetuoso, correcto ao nível do passe e difícil de ultrapassar no corpo-a-corpo, foi uma das figuras guineenses nesta CAN. Por alto, revelou-se também um jogador determinante, tanto em acção defensiva, como ofensiva. Com 19 anos de idade, revela uma maturidade competitiva acima da média, quando comparado com outros jogadores africanos da mesma geração. MVP do jogo de decisão dos terceiros e quartos lugares (vitória sobre a África do Sul).

Solomon Sakala (Zâmbia/Kabwe Warriors): Outro jogador ainda a actuar a nível local, foi um dos esteios da sólida linha defensiva zambiana. Capitão de equipa, revela sobriedade nas acções defensivas, mostrando contundência no desarme, boa colocação e agressividade. Jogador de confiança do seleccionador, mostra ainda boa compostura e eficácia no passe. Será o líder dos Chipolopolo na Coreia do Sul.

Prosper Chiluya (Zâmbia/Kafue Celtic): Rigoroso nas acções defensivas, veloz e criterioso nas subidas pelo corredor esquerdo, este lateral-esquerdo foi uma das boas revelações da prova. Empresta largura e profundidade à equipa, ao mesmo tempo que possui um interessante jogo associativo e boa qualidade nos cruzamentos para a área. Aos 18 anos, trouxe-nos à memória Emmanuel Mbola, antiga promessa da lateral esquerda da Zâmbia e que chegou a passar pelo FC Porto.

Ousseynou Cavin Diagne (Senegal/Academie F. Darou Salam): 17 anos (apenas atingirá a maioridade em Junho) e já com promessas de se poder tornar numa referência africana na posição de médio-defensivo/médio-centro. Muito alto (1,90 m), ganha com facilidade no jogo aéreo, mostrando capacidade de aparecer com incisão junto à baliza contrária em lances de bola parada. Competente em termos posicionais, rápido e com disponibilidade física, sabe posicionar-se para ganhar no choque ou em antecipação. Marcou um dos golos da prova, num disparo colocado de meia-distância, de pé direito. Como vimos, recupera e distribui, sempre com ponderação. Está destinado ao futebol europeu, sendo que antes da CAN esteve cerca de três semanas em Itália a fazer testes...

Edward Chilufya (Zâmbia/Mpande Youth): Muito jovem ainda (17 anos, colheita de 1999), foi uma das referências da versátil linha ofensiva da selecção zambiana. Actuando a partir da ala direita, fez miséria nas defensivas contrárias, mostrando astúcia a entrar em zona de remate e qualidade no um-para-um. Com bom jogo de cabeça, marcou alguns golos importantes, consagrando-se como um dos melhores marcadores do torneio. Promessa entusiasmante.

Fashion Sakala (Zâmbia/Zanaco FC): Com 20 anos recentemente completados, a sua verdadeira idade (e identidade) foi colocada em causa pelos próprios zambianos durante o torneio. Alheio às críticas, fez uma prova soberba, consagrando-se como um dos melhores assistentes do torneio e também um dos goleadores (três tentos apontados). Potente, o seu forte está na mudança de velocidade que imprime, sobretudo com recurso à perna direita (a sua predilecta). Em alguns momentos quase parece um ambi-destro, tal a facilidade em recorrer aos dois pés. Virtuoso em termos técnicos e com grande qualidade no passe e remate, foi associado ao Spartak recentemente.

Ibrahima Niane (Senegal/Generation Foot): O clube que ele integra vem de uma temporada bem conseguida no campeonato local. Segundo a France Football, estará de saída para o Metz, na próxima temporada, fruto da parceria existente entre o emblema que representa e o histórico clube francês. Extremo destro, é já comparado ao compatriota Sadio Mané, do Liverpool. Rápido, incisivo a atacar o espaço e forte no drible, recorre bem aos dois pés, embora seja destro. Bate livres directos com uma colocação notável. Expectativas de futuro auspicioso.

Luther Singh (África do Sul/SC Braga): Transferido para o Minho no passado mês de Janeiro, este atacante sul-africano completou a parte final da formação e início de percurso profissional na Suécia. Atacante móvel, rápido, técnico e com sentido de baliza, escapa muito bem por entre os defesas ou nas suas costas, revelando habilidade com bola e sagacidade sem ela. Por vezes, parecia algo desacompanhado, mas é daqueles jogadores que assume bem isso do «levar a equipa às costas». Possui um remate poderoso e bate bem bolas paradas, quer sejam livres ou penáltis. Para continuar a seguir na II Liga portuguesa!

Patson Daka (Zâmbia/Nchanga Rangers FC): Aos 18 anos, quatro golos em seis partidas num torneio de sub-20 são um bom cartão de visita para este jogador, eleito o melhor desta CAN. Avançado rápido e extremamente incisivo a atacar a última linha, revela firmeza na execução, sobretudo de pé direito, mas também de cabeça e até com o pé esquerdo. Além do mais, é uma referência em termos de apoios ofensivos, possuindo também uma boa visão de jogo. Entretanto foi emprestado ao Liefering, do segundo escalão do futebol austríaco, uma pequena e discreta rampa de lançamento rumo ao (hipotético) estrelato do futebol europeu!



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