Foto: Antonio Bat/EFE
O futebol são onze contra onze e no fim... ganha a Espanha. Pelo menos nos sub-17, a célebre máxima de Lineker deve ser alterada. Porém, este título europeu da categoria juvenil até foi o primeiro da selecção de "nuestros hermanos" desde 2008 e logo conquistado na sequência de uma fase final de competição verdadeiramente emocionante, com vitórias face a França, Alemanha e Inglaterra (estas últimas na sequência de penáltis). O torneio, como de costume, serviu que para várias promessas se mostrassem ao público e outras tivessem aproveitado para confirmar as boas impressões já deixadas noutros palcos.
A Espanha foi então uma justa campeã, embora não se pudesse falar de uma injusta triunfante se tivesse sido a Inglaterra a arrebatar o troféu. A equipa orientada por Santi Denia mostrou ser uma das mais consistentes do torneio, ainda que o nível exibicional apenas tenha sido soberbo a espaços. Uma das notas de maior destaque vai para a alteração de paradigma verificável nesta equipa, na maneira como nem sempre procura uma pressão agressiva na reacção à perda, organizando-se muitas vezes atrás da linha da bola e esperando que o adversário leve a iniciativa (sobretudo perante adversários com essa tendência). No entanto, nesses momentos, era notório como os espanhóis sofriam, acabando por mostrar a sua melhor cara precisamente nos momentos em que eram mais pressionantes e conseguiam ter a bola em sua posse.
Partindo de uma base em 1-4-2-3-1, a selecção espanhola apresentou na articulação entre meio-campo e ataque e nas subidas dos laterais a base do seu jogo ofensivo. Com o lateral-direito Morey a apresentar grande preponderância nas acções ofensivas da equipa (sobretudo através de diagonais astutas, que lhe valeram três golos ao longo do torneio), a equipa espanhola procurava um futebol dinâmico e vertical, com um trio de bom toque na zona central (Blanco-Orellana-Moha), um incisivo Fernán Torres a atacar a profundidade pela direita, o mais criativo Sergio Gómez a derivar para dentro a partir da ala esquerda e com o inteligente e laborioso ponta-de-lança Abel Ruiz a jogar de maravilha com os restantes colegas e a aparecer com contundência em zona de finalização. No momento defensivo, a equipa procurava alternar entre uma defesa posicional, num bloco médio ou tentava momentos de pressão mais activa, sobretudo através da acção da dupla Blanco-Orellana (este último foi uma das grandes revelações deste Europeu, revelando-se como um médio intenso na recuperação defensiva e dinâmico com a bola nos pés) e organizando-se com um quarteto sólido atrás. Apesar de alguns deslizes esporádicos, os laterais Morey e Miranda revelaram consistência, assim como o duo Chust-Guillamón no eixo central. A fase de grupos foi relativamente tranquila e as vitórias iniciais face a Turquia e Itália catapultaram a Rojita para um apuramento fácil. Na fase a eliminar, tudo foi mais difícil, os adversários mais exigentes, mas no final prevaleceu a maior competitividade colectiva e individual de um conjunto mais "experiente" a este nível.
Finalista vencida neste Europeu, a Inglaterra acabou por desperdiçar uma oportunidade de ouro para coroar uma geração bastante talentosa e que pode assegurar o futuro da selecção inglesa durante a próxima década. Estruturando-se entre um 1-4-2-3-1 e um 1-4-3-3, a equipa orientada por Steve Cooper promoveu um futebol atractivo, privilegiando a posse de bola e com um dinamismo assinalável na frente ofensiva. Com os extremos a actuar com o pé trocado (a figura Jadon Sancho, destro, a partir da esquerda e Phil Foden, esquerdino, a aparecer descaído na direita), a equipa apostava na qualidade do jogo interior, mas conseguindo aparecer com perigo nos corredores laterais. Por dentro, o critério dos passes teleguiados de McEachran e as rupturas de Hudson-Odoi faziam também a diferença pela positiva no processo ofensivo dos britânicos. A nível defensivo, os ingleses mostraram uma capacidade de pressão interessante, conseguindo retomar a posse rapidamente. Apesar de tudo, e até à final, podemos afirmar que o quarteto mais recuado dos Três Leões não foi demasiado exigido. Ainda assim, nota para o bom entendimento entre os poderosos centrais Guéhi e Panzo.
Os semi-finalistas vencidos e uma França de um homem só
Pelas meias-finais, embora apurados para o Mundial da Índia, ficaram as selecções da Alemanha e Turquia. Os germânicos caíram nos penáltis frente à selecção que se veio a consagrar como vencedora da prova, mas revelaram grande qualidade de jogo até esse encontro (que, por certo, foi demasiado amarrado e equilibrado). Com processos bem trabalhados, uma filosofia próxima das selecções "mais velhas" (posse de bola, conceitos como saída em apoio desde trás, através dos centrais, laterais ofensivos, meio-campo hábil e de toque), a Mannschaft teve uma fase de grupos tranquila e ultrapassou depois a competitiva Holanda nos quartos-de-final. O ponta-de-lança goleador Arp foi uma das referências, de uma equipa na qual se destacaram também os centrais Mai e Boller, o lateral-direito Ludewig, o médio Majetschak, os criativos Abouchabaka e Yeboah e ainda o guardião Plogmann.
Já a Turquia apresentou um rendimento muito interessante durante a totalidade do torneio, caindo apenas perante o futebol positivo da Inglaterra. Logo no primeiro jogo, ao adquirir vantagem de dois golos sobre a Espanha, se percebeu ao que esta equipa vinha: um agradável futebol de toque, com um meio-campo afinado e dois extremos técnicos e com bom jogo associativo. Porém, o conjunto ibérico operou a reviravolta, tendo os triunfos frente a Croácia e Itália carimbado o passaporte turco para os quartos-de-final. Aí, a equipa otomana foi mais pragmática perante a surpreendente Hungria e assegurou a chegada à Índia. O criativo Atalay Babacan acabou por se destacar, tal como se previa antes do torneio, mas houve outros jogadores que mostraram coisas muito interessantes (Kerem Kesgin, Recep Gul, Yunus Akgun ou Ozan Kabak).
A França foi a última das selecções europeias a garantir o acesso ao Campeonato do Mundo de sub-17. Por aqui se percebe, então, que o torneio dos gauleses esteve longe de ser brilhante. As exibições na fase de grupos foram inconstantes e apenas o brilho do "matador" Amine Gouiri iluminou uma equipa com alguns problemas a nível defensivo. De resto, a técnica de passe de Adli, as subidas do lateral Collet e a consistência do médio Claudio Gomes foram os outros maiores destaques pela positiva numa equipa que esteve muito dependente das individualidades...
As outras selecções
A Hungria esteve muito perto de assegurar um lugar no Mundial, mas acabou por perder no "play-off" perante uma selecção que curiosamente havia batido logo no arranque da competição (a França). O conjunto magiar acabou por ser a surpresa mais agradável a nível exibicional da primeira fase, excluindo da equação as principais favoritas ao título. Bons princípios de jogo, numa equipa vertical com bola e sólida na organização/transição defensiva. Os laterais Kovács/Majnovics davam largura e profundidade à equipa (sobretudo o último), compensando bem essas subidas com astúcia nas acções defensivas. O central Mocsi chegava a participar no momento inicial de construção, mas eram sobretudo os médios (Csonka, Bencze e, mais à frente, Szoboszlai) que participavam de forma constante nesse processo, assegurando à equipa uma saída de bola limpa a partir de trás. Na frente, Szeretó era um perigo à solta na ala direita, Torvund segurava os defesas contrários e recebia bolas longas, enquanto o benfiquista Csoboth procurava aparecer em zona de finalização através de diagonais a partir da ala esquerda.
Caíram igualmente nos quartos-de-final as selecções da Holanda e da Irlanda. Enquanto os holandeses, liderados pelo criterioso El Bouchataoui e com outros craques tecnicistas em plano de evidência (Familio-Castillo ou Mallahi), deram água pela barba à Alemanha na contenda que colocou os germânicos entre os quatros melhores da Europa na categoria sub-17, a turma irlandesa apurou-se por "milagre" para a segunda fase da competição, tendo aí efectuado o melhor jogo na prova (derrota pela margem mínima face à rival Inglaterra).
Na fase de grupos, ficaram pelo caminho oito equipas. Destaque para a decepcionante prestação das selecções balcânicas, em particular da Sérvia, que mesmo podendo argumentar que a questão do desempate na luta pela qualificação para a fase seguinte lhe foi altamente desfavorável, nunca se poderia ter dado ao luxo de perder ante a Bósnia-Herzegovina mesmo sobre o soar do gongo. A Noruega chegou a mostrar alguns detalhes interessantes, no arranque frente à Inglaterra e no embate frente à Holanda (embora aí, sobretudo, depois da entrada do jogador mais talentoso, Jorgen Larsen). De todos, a maior desilusão acabou por ser a Itália, naturalmente. Se é verdade que o melhor jogador, Moise Kean, apenas apareceu na primeira partida, os restantes companheiros não foram capazes de competir seriamente nos restantes encontros. Apesar de tudo, sobram as amostras interessantes do guarda-redes Ghidotti, do central Anzolin, do lateral polivalente Candela, dos médios Pinna e Caligara ou do ala Portanova.
MELHOR "ONZE" DA COMPETIÇÃO
Luca Plogmann (Alemanha/Werder Bremen): Guarda-redes que gosta de arriscar nas saídas e que serve de apoio no início de construção, foi um dos esteios da selecção alemã ao longo do torneio. Ágil, com reflexos acima da média, veloz e com bom despejo de bola, transmitiu segurança na maioria dos lances defensivos em que esteve envolvido. Personalidade de comando.
Mateu Morey (Espanha/Barcelona): Indiscutivelmente, o melhor lateral-direito da competição. Goleador (apontou três tentos), destacou-se pelas suas incursões em zonas interiores, finalizando a preceito, de pé esquerdo, apesar de ser destro. Voluntarioso, sai a jogar com facilidade e desdobra-se em apoios ao extremo do seu lado. Defensivamente, mostra-se assertivo nas marcações, apesar de deixar alguns espaços, sobretudo quando avança no campo. Diamante em bruto a crescer na profícua escola de laterais de La Masía.
Marc Guéhi (Inglaterra/Chelsea): Central destro, capitão e voz de comando da selecção inglesa. De raízes marfinenses, este defesa esteve sóbrio e seguro ao longo das quase três semanas de torneio. Contundente nas abordagens defensivas, forte no desarme e intercepção, consegue também lançar os companheiros em zonas mais adiantadas através de passes longos. Consistente.
Jan Boller (Alemanha/Bayer Leverkusen): Faz lembrar de certa forma Matthias Ginter pela forma confiante e corajosa como aborda o momento de construção de jogo, saindo a jogar desde trás com um à vontade notório. Defensivamente, revela também atributos interessantes, além de possuir um bom jogo aéreo. Óptima visão de jogo e sentido construtivo no seu jogo, passando boa parte do tempo na metade do campo rival.
Martin Majnovics (Hungria/AKA Burgenland): Lateral-esquerdo revelação desta competição, merece o destaque pela acutilância que mostrou no plano ofensivo, tanto em profundidade, como buscando surpreender as marcações com movimentos interiores mas também pelo registo defensivo, combativo, de choque e com qualidade no desarme. Aos 16 anos, vai já crescendo no campeonato sub-18 da Áustria.
Kerem Kesgin (Turquia/Bucaspor): Um belíssimo médio-centro, projecto híbrido entre "6" e "8". Destaca-se sobretudo com a bola nos pés, revelando um critério imenso ao nível do passe curto, médio e longo. Tacticamente, foi um dos jogadores mais relevantes na belíssima equipa de Mehmet Hacioglu. Autor de um belo golo frente à Inglaterra, na semi-final.
Jandro Orellana (Espanha/Barcelona): Pode parecer algo franzino à primeira vista, mas a sua imponência táctica transformou-o numa espécie de fiel da balança para Santi Denia. Muito preciso ao nível do passe, vira o centro do jogo com facilidade e é um recuperador de bolas nato, apesar de não ter características marcadamente defensivas. Recupera sobretudo através de intercepções e antecipações e depois sabe sempre decidir com notável ponderação. Veremos o que lhe irá reservar o futuro...
Phil Foden (Inglaterra/Man. City): Partindo habitualmente da faixa direita, sempre com a bola colada ao pé esquerdo, somou diversas intervenções determinantes ao longo do torneio. Forte no drible, encara os adversários com descaramento no um-contra-um, ganhando com isso metros decisivos. Óptima capacidade de passe, aliada a uma soberba visão de jogo. Cobra ainda bolas paradas com distinção.
Jadon Sancho (Inglaterra/Man. City): Cinco golos e cinco assistências durante um torneio desta envergadura são cartão de visita suficiente para um jogador que já chegava catalogado como uma das potenciais estrelas da competição. Veloz, com uma potência de arranque sublime e grande destreza de movimentos, livra-se facilmente da marcação nos duelos individuais e galga metros com a bola nos pés. Extremamente resolutivo, pode melhorar ainda na tomada de decisões, parecendo que por vezes ainda se agarra demasiado ao "couro". Finalizador irrepreensível.
Abel Ruiz (Espanha/Barcelona): As suas exibições foram autênticos manuais educativos de como um avançado se deve movimentar fora da grande área. Móvel, com grande sentido táctico, bom jogo associativo, remate fácil e capacidade de actuar de costas para a baliza, revela ainda arcaboiço para aguentar os despiques mais físicos, algo que lhe é conferido precisamente pela dimensão considerável da sua musculatura para um miúdo de 17 anos. Marcador (quatro golos, embora três tenham sido de penálti) e assistente (três ao longo do torneio).
Amine Gouiri (França/Lyon): O goleador do torneio. Já se havia destacado recentemente no particular frente à congénere selecção belga (cinco golos apontados), mas neste Europeu continuou a superar-se (oito golos marcados, mais o tento decisivo no "play-off" ante a Hungria). Partindo habitualmente da esquerda e executando diagonais curtas mas potentes, revelou uma capacidade de definição excelsa, sobretudo de pé direito, mas também argumentando com o pé esquerdo e mostrando atributos no jogo aéreo. Tecnicamente dotado, móvel e eficaz, pode melhorar em certos aspectos tácticos e psicológicos, mas o potencial está todo lá!

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